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Você tem um plano B?

A administradora carioca Cristina Proença, 35 anos, que mora em São Paulo desde criança, tinha tudo para seguir com sucesso a sua carreira executiva. Durante sete anos, ela prestou consultoria para empreendedores interessados em sistemas de franquia. Também trabalhou como gerente de produto da Procter & Gamble e atuou em duas das maiores redes de academia da capital paulista. Seu currículo inclui um MBA com especialização em marketing na Fundação Getulio Vargas, de São Paulo. Mas, apesar da experiência e da boa formação, Cristina não se sentia bem com o trabalho.   

 

‘Não estava totalmente realizada’, diz. ‘Com o tempo, percebi que deveria dar um novo rumo para a minha carreira, porque o que mais gostava de fazer era passar meu conhecimento para outras pessoas.’ Não deu outra. A executiva virou professora. Hoje, ela dá aulas no Programa de Administração do Varejo (Provar) da FIA-USP, onde também presta consultoria, e na pós-graduação da Faap, além de ocupar a diretoria do programa de marketing da Brazilian Business School (BBS), de São Paulo. ‘Fiz a escolha certa’, afirma a professora que, desde o ano passado, encontra tempo para cursar doutorado em marketing na USP. Cristina faz parte de um time cada vez maior de executivos que estão bolando um plano B para suas carreiras. Havendo alguma crise – pessoal ou na empresa onde estão – , eles têm uma rota alternativa a seguir. Um levantamento feito com exclusividade para a VOCÊ S/A pela H2R Pesquisas Avançadas, de São Paulo, com 140 executivos mostra que metade deles quer encontrar um novo desafio ou já começou a colocar em prática sua estratégia para mudar de direção. Desse total, 70% pretendem implementar o plano B nos próximos cinco anos. Um quarto dos entrevistados já colocou a idéia em prática, sem abrir mão de sua carreira atual. A pesquisa foi realizada com executivos (homens e mulheres) com idade média de 40 anos. Os entrevistados ocupam cargos de gerentes, diretores, vice-presidentes e presidentes em empresas de médio e grande porte de todo o Brasil e foram ouvidos na segunda quinzena de março. Um dado curioso do estudo é o seguinte: o nível de satisfação dos executivos é alto. Noventa e cinco por cento deles disseram estar, em maior ou menor grau, satisfeitos com o que fazem. Se está tudo bem, por que metade dos profissionais pensa em um plano B? ‘Os executivos estão sofrendo com muita pressão e cobrança por resultado no curto prazo’, diz Rubens Hannun, sócio da H2R. ‘Eles pensam no assunto porque estão buscando melhorar sua qualidade de vida.’ A consultora Márcia Hasche, da Valor Pessoal, de São Paulo, especializada em clima organizacional, acrescenta: ‘As pessoas querem ser felizes no trabalho. Se isso não acontece, elas não hesitam em procurar um novo caminho.’ Mas o que fazer? Essa é uma dúvida comum de quem sente que poderia agir como Cristina. Ela optou por dar aulas porque gostava do assunto a ser ensinado. E esse é um bom raciocínio. Pela pesquisa da H2R, abrir a própria empresa e transformar o hobby em negócio estão, ultimamente, na cabeça-de-chave da mudança. O casal Júnia, 37 anos, e André Paiva, 42, não só transformou o que gostava em algo lucrativo, como deu um passo além. Eles executaram um projeto juntos e estão satisfeitos com os resultados. André estudou relações públicas e é sócio de uma empresa especializada em fazer o desembaraço de mercadorias que entram e saem do país pelo Porto de Santos. Júnia é médica ginecologista e obstetra. O casal mora em Santos e sempre gostou de receber amigos em casa. ‘Pensamos, então, que poderíamos montar uma pousada’, diz Júnia. Além da idéia satisfazê-los, ela lhes pareceu lucrativa. Como a medicina já não dá o mesmo retorno financeiro de alguns anos e tem diminuído a burocracia nas exportações e importações brasileiras, se não partissem para um negócio próprio, os dois avaliaram que poderiam enfrentar uma queda no padrão de vida num futuro próximo.

Há 12 anos, André e Júnia compraram um sítio em Santo Antônio do Pinhal, cidade que fica a 20 quilômetros da badalada Campos do Jordão. Ali começaram a elaborar o plano B. Após pesquisar hotéis do Brasil, Argentina, Suíça e Rio de Janeiro, o casal encontrou o modelo de pousada ideal. O empreendimento foi inaugurado em 2001 e se chama Quinta dos Pinhais. A propriedade está no topo de uma montanha entre o Pico Agudo, a Pedra do Baú e o sul de Minas Gerais. O investimento estimado para deixar os dez chalés e os 180 000 metros quadrados impecáveis foi da ordem de 2 milhões de reais. Por alto, André e Júnia tiram, por mês, cerca de 50 000 reais. Eles são a exceção, porque, em geral, pousada dá mais prejuízo do que lucro. De cada dez hotéis abertos, três fecham em um ano e quatro, em cinco anos. ‘Planejamos cada passo e a pousada cheia é a prova de que nosso plano B deu certo’, diz André.

Pensar sobre o plano B está virando hábito. Levar o desejo adiante é outra história. ‘Em geral, o sonho vai sendo empurrado com a barriga e pouca gente tem coragem de começar uma carreira do zero’, diz Marcelo Braga, sócio da Fesa Global Recruters, consultoria especializada em recrutamento de executivos. O problema pode ser outro. ‘A carga horária e a pressão são tão grandes que muita gente não consegue nem mesmo pensar nesse assunto’, diz Antonio Carvalho Neto, diretor do Instituto de Relações do Trabalho, da PUC de Minas Gerais. O medo de arriscar engessa muitos executivos que não conseguem dar o pontapé inicial à mudança. Isso também mostra que os profissionais estão mais realistas e calculam bem os riscos antes de dar um passo tão importante.

E como as empresas estão reagindo a esse fenômeno? De uma maneira geral, as companhias sabem e até aprovam que seus profissionais pensem em estratégias de carreiras. Primeiro porque isso é absolutamente saudável. Segundo porque seria impossível deter a imaginação dos profissionais, estejam eles satisfeitos ou não com seus empregadores. ‘E, por fim, porque as empresas também mudaram. Elas valorizam e estimulam executivos que têm vida além de suas paredes’, diz Marcela Barbara, diretora de novos negócios da H2R. Prova disso é a história do agrônomo Carlos Eduardo Zamataro, 42 anos, gerente de marketing de culturas perenes da fabricante de defensivos agrícolas Milenia, de Londrina. Carlos Eduardo é um profissional qualificado, fez pós-graduação e MBA em marketing, já trabalhou em cooperativa agrícola e tem um projeto: abrir um restaurante. Há alguns anos ele passou por essa experiência, que só não foi para frente por causa de brigas entre os sócios. ‘Penso em um novo restaurante, mas desta vez mais bem estruturado’, afirma.

Carlos Eduardo já colocou tudo no papel. Sabe quanto precisa para investir, tem uma boa estratégia de marketing e pensou em um cenário econômico positivo, sem esquecer de uma realidade um pouco pior. ‘Quero crescer mais dentro da Milenia e só depois vou colocar esse plano em prática’, diz. ‘Não quero ficar tão dependente da empresa.’ É provável que assim que decida partir para a prática, Carlos Eduardo se dê bem. Isso porque um plano B só se torna pla  no A e dá certo se o planejamento for bem-feito. Entre os entrevistados pela H2R que pensam em mudar suas carreiras, 44% estão estudando seus projetos antes de colocá-los em prática. Enquanto pensam, pesquisam e debatem a idéia, os executivos guardam dinheiro ou procuram investidores. ‘É preciso montar um plano de negócios, seja para abrir uma empresa, procurar emprego ou transformar um hobby em trabalho’, diz o consultor financeiro Márcio Iavelberg, de São Paulo.

Quando começou a pensar em alternativas à sua carreira, Francisco Moreira Dubeux Leão Jr., 52 anos, colocou o lado financeiro em primeiro plano. Médico urologista, Francisco trabalhou a maior parte do tempo em laboratórios farmacêuticos. ‘É melhor gastar com especialistas e pesquisa de mercado antes de colocar o plano em prática do que fazer tudo mais ou menos e perder dinheiro depois’, diz. Francisco é gerente da divisão de pesquisa clínica do Laboratório Fleury, que tem 14 unidades no Estado de São Paulo, além de Brasília e Rio de Janeiro. Nas horas vagas, ele toca a criação de peixes na fazenda que fica em Igaratá, a 100 quilômetros da capital paulista. São 50 toneladas de tilápia por ano, vendidas para restaurantes e pesque-pagues. ‘Acho que os planos B sempre rondam a cabeça dos executivos’, diz. Se esse é seu caso, fique certo: não é pecado estruturar sua vida além das portas da empresa. Aliás, a sua carreira só tem a agradecer.

O que faz a cabeça dos executivos

Abrir a própria empresa está na cabeça de muitos executivos, mas não é a única alternativa. Saiba em que os profissionais estão pensando

Percentual Objetivos
37% Abrir a própria empresa
20% Transformar o hobby em negócio
16% Mudar de cargo dentro da empresa
9% Trocar de cargo em um novo emprego
9% Virar professor
4% Ser autônomo
5% Outros

Fonte: H2R Pesquisas Avançadas

Plano B para quê?

Conheça os principais motivos que levam os executivos a montar uma rota de fuga para a carreira

Percentual Motivação
40% Qualidade de vida
31% Aposentadoria
14% Aumento da renda
7% Crescimento profissional
6% Herança para os filhos
2% Outros

Fonte: H2R Pesquisas Avançadas

Em estágios diferentes

Entre tirar a nova estratégia do papel e passá-la para a prática há um longo caminho. Conheça em que fase os executivos pesquisados pela H2R se encontram

Percentual Fase
44% Preparação
29% Já pensou no assunto, mas não fez nada de concreto
26% Está colocando o plano em prática
1% Tem vários projetos, cada um em um estágio

Fonte: H2R Pesquisas Avançadas

3 passos importantes para um plano B de sucesso:

1. Prepare seu bolso

Não importa se você vai abrir uma empresa, mudar de emprego ou virar escritor. Antes de colocar a mão na massa é preciso preparar-se financeiramente para viabilizar um projeto ou ficar um tempo sem renda. O primeiro passo é saber o quanto entra e sai da sua conta. ‘É importante fazer uma lista com receita e despesas para visualizar o que é gordura’, diz o consultor financeiro Márcio Iavelberg, de São Paulo. ‘Tudo o que sobrar deve ir para o plano B.’

O ideal é ter uma reserva entre seis e 12 meses de salário. Isso garante uma certa tranqüilidade para o profissional se dedicar ao novo empreendimento, sem se preocupar com os gastos do dia-a-dia. Quem pretende abrir uma empresa deve considerar que, em geral, o lucro acontece depois de seis meses da abertura. ‘As pessoas subestimam esse prazo’, diz Paulo Vera, diretor da ONG Instituto Empreender Endeavor. Portanto, segure a ansiedade. Quando seu bolso estiver recheado, aí sim mude a rota da sua vida por completo.

2. Cesta de alternativas

Pode-se dizer que o economista Fabio Zanetti, 43 anos, inverteu a ordem das coisas: transformou o que para muita gente é um plano B em primeira opção. E, não contente com isso, largou tudo e mudou de área novamente. Aos 17 anos, Fabio abriu um bar de jazz e blues em Santo André, na Grande São Paulo. Nos 15 anos em que o bar funcionou, Fabio fez alguns bicos. Trabalhou na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), vendeu jóias, foi funcionário de uma mineradora e montou uma pequena gravadora – tudo o que poderia ser um plano A. ‘Era uma maneira de ter dinheiro nos períodos mais difíceis’, diz ele.

Muitos músicos internacionais tocaram no bar e outros tantos brasileiros lançaram seus discos ali. Animado com o mercado fonográfico, Fabio começou a bolar um novo plano: investir em uma gravadora. A idéia foi tomando forma até que o bar virou de fato plano B. Fabio levou dois anos para planejar a gravadora CD+ nos mínimos detalhes. Contratou executivos e foi para Caucaia, na Grande Fortaleza (Ceará), onde conseguiu incentivos fiscais. Mais recentemente abriu sua segunda unidade, em Manaus, no Amazonas. Com 150 funcionários, Fabio fechou 2004 com faturamento de quase 37 milhões de reais, 32% a mais do que no ano anterior. Para driblar a pirataria e a concorrência com as grandes empresas do setor, ele mergulhou nas apostilas educacionais, CDs para provedores de internet e música regional. Agora, começa a entrar no ramo de distribuição. ‘Estou muito feliz com tudo o que construí’, diz.

3. Frutos de uma grande virada

Imagine que você atingiu o sucesso na sua carreira, ganhou os mais importantes prêmios, tem um bom salário e trabalha na empresa líder do setor. Está tudo perfeito, a não ser por um detalhe: você quer mais de sua vida profissional. Há três anos, o publicitário Heitor Dhalia, 35 anos, estava vivendo esse dilema. Recifense que mora em São Paulo há 12 anos, Heitor era redator da agência Young & Rubican, a maior do Brasil, e em dez anos de carreira ganhou os mais renomados prêmios, como o de Cannes, de Nova York e o Profissionais do Ano, da Rede Globo. ‘Mas eu tinha outro projeto para minha vida’, afirma Heitor.

Enquanto trabalhava, ele sempre ficava de olho no cinema. Tanto que, em 1998, ele deu o livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, para o cineasta Fernando Meirelles. O livro virou filme e foi indicado a quatro Oscar, além de ganhar vários outros prêmios. Heitor escrevia roteiros para filmes de curta-metragem – jeito que encontrou para ir se preparando para a grande mudança que estava organizando. Há três anos, não agüentou mais e decidiu largar tudo. Foi convidado para trabalhar na produtora Sentimental Filme, de São Paulo, onde também dirige comerciais. Aceitou na hora e logo emplacou um sucesso. Seu primeiro longa-metragem, Nina, uma adaptação do livro Crime e Castigo, de Dostoievski, participou de cerca de 30 festivais internacionais. Em outubro deste ano, ele começa a filmar o romance O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli, cuja história se passará em São Paulo, Buenos Aires, Patagônia (Argentina) e Punta Del Este (Uruguai).

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